Há cerca de dez anos, quando a trama de O cravo e a rosa, escrita por Walcyr Carrasco, trouxe grande audiência com sua comédia ambientada na década de 1920, a TV Globo passou a destinar seu horário das 18h às chamadas "novelas de época". Foram raras (e mal sucedidas) tentativas de voltar a ambientar tramas em época atual - o "passado", revisto em novelas como Chocolate com pimenta e Sinhá Moça, comprovou ser um bom filão a ser explorado.
Em 2005, veio a público o ápice da nova fórmula de se fazer "novela das seis". Assinada por Walcyr Carrasco, Alma gêmea trouxe excelentes índices para a emissora do Jardim Botânico, e, muitas vezes, superou em pontos as outras novelas exibidas na casa (na época, Bang bang, às 19:15, e Belíssima, às 21h). O "grupo de discussão" (pessoas designadas pela emissora para opinar sobre os altos e baixos de cada novela) revelou a razão principal: o "amor além das vidas" - Rafael e Luna, um casal apaixonado era separado por uma tragédia (o assassinato dela), mas a alma da moça reencarnava na índia Serena.
Atenta ao interesse do espectador na discussão sobre o espiritismo, a TV Globo programou para a seção Vale a pena ver de novo (horário no meio da tarde que reexibe novelas antigas da emissora) a novela A viagem. Escrita por Ivani Ribeiro, esta reedição de um sucesso da extinta TV Tupi tinha ido ao ar em 1994 no horário das 19h, e reapresentada à tarde no ano de 1997.
A "Vênus Platinada" pegou o espírito da coisa, e programou para outubro de 2006 (sucedendo uma reedição de novela - Sinhá Moça) uma nova abordagem do espiritismo. Aliás, nem tão nova. O espiritismo voltou à telinha na reedição de O profeta - novela também assinada por Ivani Ribeiro, exibida originalmente na TV Tupi em 1977.
Mas a história de Ivani sobre o paranormal que, com o passar do tempo, cai na tentação de usar seu dom em benefício próprio teve uma sensível mudança, adequada ao padrão global do horário. Da época atual do texto original, esta adaptação de Duca Rachid, Thelma Guedes e Júlio Fischer retornou ambientada nos anos 50 - escolha certeira, pois talvez não ficasse muito verossímil em pleno século XXI a comoção em torno de um homem que diz que prevê o futuro e pode enxergar o passado das pessoas, além de ver e conversar com espíritos.
O profeta chega ao seu fim com uma considerável audiência - aquém da bem sucedida novela espírita Alma gêmea, mas, ainda assim, no posto de única novela da grade global a não estar com índices preocupantes para os executivos da TV Globo. Ao que parece, por maiores que sejam os avanços tecnológicos da maior emissora de televisão do país e por mais que a teledramaturgia tente se adequar às discussões que estejam em voga nos dias atuais, a nostalgia das "novelas de época" ainda é a única verdadeira garantia de sucesso dos folhetins.
Mas depois vem Eterna Magia, que quebra essa regra e se torna o primeiro fracasso desse gênero. Mas o tema havia mudado, do espiritismo foi para a magia. Isso só prova que em time que está dando certo, não se muda nem a numeração.

Nenhum comentário:
Postar um comentário